Quem cresceu em cidades pequenas do interior provavelmente já ouviu falar, ou até ouviu de fato, aquele canto distante que atravessava a madrugada durante a Quaresma. Uma cantoria lenta, quase sussurrada, que ecoava pelas ruas silenciosas. Para muitas crianças, era motivo de curiosidade… e de medo.
Nas casas, a orientação era sempre a mesma: não abrir a porta, não olhar pela janela.
Em Itamogi, como em várias cidades do interior de Minas Gerais, esse costume ficou conhecido como “cantar pras almas” ou “encomendação das almas”. Um grupo de pessoas caminha pelas ruas à noite entoando rezas cantadas, geralmente acompanhadas pelo som seco de matracas de madeira. O objetivo é rezar pelas almas dos mortos, especialmente por aquelas esquecidas, que já não tinham mais quem rezasse por elas.
Para quem estava dentro de casa, restava escutar em silêncio.

A escolha da matraca não era por acaso: na tradição católica, durante o período quaresmal, os sinos de metal das igrejas eram silenciados, ‘atados’, como sinal de respeito e penitência. A matraca, com sua sonoridade rústica, ocupava o lugar do bronze, lembrando a todos que aquele era um tempo diferente, um tempo de recolhimento.
O que é o “cantar pras almas” e como essa tradição surgiu
A prática não nasceu no Brasil. Ela veio da Península Ibérica, trazida por colonizadores de Portugal e também presente em regiões da Espanha desde a Idade Média. Lá, o ritual é chamado de Encomendação das Almas e ainda resiste em comunidades rurais, especialmente nos arquipélagos dos Açores e da Madeira.
Com a colonização, essa prática chegou ao Brasil e encontrou terreno fértil em regiões onde o catolicismo popular se manteve forte. Assim, o canto das almas passou a fazer parte das tradições quaresmais em vários estados, como Minas Gerais, Goiás, Bahia e São Paulo.
Em muitos lugares, o grupo sai pelas ruas após o anoitecer. As pessoas caminham lentamente, rezando e cantando. Algumas tradições dizem que não se deve olhar para trás durante o percurso. Outras afirmam que o grupo deve terminar a caminhada no cemitério, entregando ali as orações pelas almas.
Em Itamogi, a tradição ganhava contornos ainda mais específicos. Os grupos costumavam sair para rezar em um número ímpar de casas, uma simbologia comum em ritos de passagem e proteção. Ao final da jornada, o silêncio e o clima de penitência davam lugar a um gesto de partilha: na última casa visitada, era costume oferecer algo para comer aos cantadores, como um agradecimento pela intercessão e pelo esforço da caminhada.
Para entender por que essa tradição acontece justamente nessa época do ano, é preciso voltar ao significado da Quaresma. Mais do que os quarenta dias que antecedem a Páscoa, esse período remete ao tempo de jejum de Jesus no deserto. É um tempo de ‘quarentena’ espiritual, marcado pelo silêncio, pela penitência e pela reflexão profunda. Nas cidades do interior, esse clima de introspecção criava o cenário perfeito para que as preces pelos mortos ecoassem com ainda mais intensidade.
Entre fé, cultura e memória
Para muitas pessoas, a lembrança é quase cinematográfica: ruas escuras, janelas fechadas, adultos rezando em silêncio e crianças tentando descobrir de onde vinha aquele canto misterioso. Era uma mistura de devoção, tradição e imaginação.
Hoje, em algumas localidades, a prática ainda resiste. Em outras, ficou guardada apenas na lembrança de quem viveu essas noites quaresmais cheias de mistério.
“Alerta pecadores
Acordai quem está dormindo
Pra rezar um Pai Nosso”
Tradições como o “cantar pras almas” mostram como fé, cultura e história se misturam nas pequenas cidades. São práticas que atravessaram séculos e oceanos até chegar ao interior do Brasil, transformando-se ao longo do tempo, mas mantendo sua essência. Mais do que um ritual religioso, elas fazem parte da identidade das comunidades, e ajudam a contar um pouco da história de quem vive nelas.
“Durante o período da Quaresma, muita coisa tinha que ser evitada, por exemplo: não se comia carne, deixava barba por fazer e não cortava o cabelo. Cantava-se para as almas, entoando uns cânticos tristes e frios, que impressionava. Tarde da noite, quando todos estavam recolhidos aos seus aposentos, os cantadores chegavam num silêncio gelado e a matraca repicava num ritmo assombroso, e logo começavam a cantar aquelas músicas de tom grave e então a gente nem mexia na cama, num vazio inevitável e melancólico. Terminada a música a matraca tornava a repicar e ia desaparecendo lentamente deixando para trás um ar de cemitério. Era de arrepiar. Então a gente cobria a cabeça e rezava mais.” (SANTOS, José Barbosa dos. Memórias de Itamogi. 2003, p. 126)
E você? Já ouviu o canto das almas em Itamogi ou em alguma outra cidade do interior?
Vídeo da reportagem de Angelo Pórtuguês realizada em Itamogi, em 2011.

