Tem datas que carregam mais de um significado e o dia 24 de junho é uma delas.
Para o mundo cristão, é o dia de São João Batista, o “santo festeiro”, o único cujo nascimento é celebrado pela Igreja. Para o interior de Minas Gerais, é sinônimo de fogueira, quadrilha, quitanda e aquele cheiro inconfundível de festa junina. Para Itamogi, é o dia do aniversário da cidade. E para este projeto, é também o dia em que tudo começou.
Em 24 de junho de 2020, no dia em que Itamogi completava 148 anos, publiquei o primeiro texto do Vem pra Itamogi. Não foi coincidência, foi intenção. Naquele momento, eu morava novamente na cidade depois de um longo período fora, e o reencontro com Itamogi havia me despertado algo: a percepção de que havia muito para ser contado, e quase nada registrado.
Hoje, seis anos depois, Itamogi completa 154 anos. E este projeto completa, junto com ela, mais um ano de existência. Por isso, desta vez, não escrevo como redatora, escrevo como itamogiense apaixonada pela história da sua terra.

Uma cidade que merece ser contada
Cercada de morros e rios, Itamogi esbanja paisagens e belezas naturais. No alto, no ponto central, a Igreja Matriz São João Batista pode ser avistada dos quatro cantos da cidade, imponente, como sempre foi. Com cerca de 11 mil habitantes, a cidade tem o perfil das cidadezinhas do interior de Minas, onde todos se conhecem, a vida é tranquila e os costumes e tradições perduram por gerações.
É uma cidade que recebe seus visitantes com um cafezinho e muita hospitalidade. Que tem nas Congadas de dezembro um dos espetáculos mais bonitos que já vi. Que guarda nas suas ruas, nas suas histórias e na memória do seu povo uma riqueza que muita metrópole não tem.
Mas que, por muito tempo, existiu sem que ninguém contasse isso para o mundo.
Como tudo começou
O retorno a Itamogi me aproximou da cidade de uma forma diferente. Adulta, com olhos de quem havia vivido outros lugares, passei a enxergar o que antes eu simplesmente não via. Comecei a fazer perguntas, a pesquisar, a conversar com pessoas mais velhas, a ler os poucos livros que documentam a história do município, como “Itamogi: Caminhos de Sua História”, de Terezinha Barbosa Guimarães, e “Memórias de Itamogi”, de José Barbosa dos Santos, obras que se tornaram referências fundamentais para este projeto.
E quanto mais eu descobria, mais me perguntava: por que isso não está na internet? Por que quem pesquisa o nome da cidade não encontra nada?
Foi aí que nasceu o Vem pra Itamogi. Primeiro como um perfil no Instagram, com fotos da cidade e depois, como um site e um blog, onde as histórias passaram a ter o espaço que mereciam. O nome “Vem pra Itamogi” é um convite, para quem nunca foi conhecer, e para quem é de lá redescobrir. Mas por trás do nome há uma ideia maior: a de que nós mesmos, às vezes, não valorizamos o lugar de onde viemos e que a gente precisa ir embora para aprender a olhar para trás.



O que construímos nesses seis anos
Ao longo desse tempo, fui mergulhando na história e na cultura de Itamogi, um tema de cada vez. Cada texto foi uma descoberta, às vezes emocionante, às vezes surpreendente, mas sempre significativa.
Começamos pelo começo: as primeiras linhas da história de Itamogi, contando como a cidade nasceu das matas desbravadas por posseiros, cresceu com o ciclo do café e do ouro, passou por dois nomes diferentes antes de se tornar Itamogi, nome que, em tupi, significa “Rio das Pedras”.
Depois, subimos o morro e entramos na Igreja Matriz de São João Batista, o cartão postal da cidade, construída no início do século XX com tijolos doados pela comunidade, com altar em mármore de Carrara e um relógio com uma história de fé e gratidão por trás.
Falamos das Congadas, a festa centenária que acontece em dezembro e transforma as ruas de Itamogi num espetáculo de cores, sons e devoção. Uma celebração que carrega as raízes do povo negro, a memória dos escravizados e a força de uma tradição que resiste há mais de 140 anos na cidade.
Contamos a história da linha do trem, que chegou em 1913 através do ramal da Companhia Mogiana trazendo progresso e conectando Itamogi ao mundo. Hoje essa memória vive apenas nas lembranças dos mais velhos e na Estação que abriga a Casa da Cultura.
Também exploramos as tradições juninas, tão presentes no interior de Minas, com suas quermesses, terços e fogueiras que guardam séculos de história e sincretismo cultural.
Celebramos as Folias de Reis, os grupos que saem às ruas entre dezembro e janeiro, de casa em casa, levando fé, canto e fartura, numa tradição que é hoje Patrimônio Cultural Imaterial de Minas Gerais.
E mais recentemente, quebramos o silêncio da madrugada para falar do canto pras almas, aquela cantoria quaresmal que ecoava pelas ruas escuras, que assustava as crianças e que hoje existe, para muitos de nós, apenas como uma lembrança cinematográfica de noites frias e janelas fechadas.
Cada um desses textos é um pedaço de Itamogi e cada pedaço que a gente registra é uma história que não se perde.
Escrever de longe
Desde o final de 2021, moro em Batatais, no interior de São Paulo, a cerca de 70 km de Itamogi. Volto lá sempre que posso, e tem uma sensação estranha nisso: a de que a distância, ao mesmo tempo que dificulta, também afina o olhar.
Quem está dentro de casa nem sempre vê as paredes. Às vezes é preciso sair para entender o valor do que ficou. Este projeto nasceu de um reencontro e continua vivo porque esse afeto não tem endereço fixo.
Feliz aniversário, Itamogi
154 anos de história, de tradição, de fé e de gente boa! Que a Igreja continue de pé no alto do morro, que as Congadas continuem tomando as ruas em dezembro, que o café continue sendo o melhor do país e que as histórias continuem sendo contadas.


Você tem memórias de Itamogi? Conta pra gente nos comentários ou manda mensagem pelo Instagram.
Cada história contada é mais um pedaço da cidade preservado!

